MARGEADO
(crítica-ficção)
Peço licença para me intrometer nesse espaço. Sou a primeira coisa e uma das últimas a aparecer em Margeado. Sou uma motocicleta Honda 4-Stroke de identidade frágil porque sem placa. Já sou bem gasta, com uma correia enferrujada pela maresia que de vez em quando se quebra, deixando a pé o meu dono, o Dingue (Danilo Andrade), que o pessoal chama somente de Pescador.
Logo no começo do filme, o Dingue se separa da mãe (Verônica Gomes) e parte meio sem rumo montado em mim. A nossa aldeia pesqueira está falida de peixe um ano depois que um desastre ambiental encheu o rio de barro (ficou “margeado”) e a água de beber ficou racionada. Mas o diretor de Margeado não quer fazer mais uma denúncia do descaso das empresas de mineração. Isso já foi feito em muitos filmes por aí.
Diego Zon me escolheu pessoalmente para ser uma espécie de segunda protagonista da película (ainda se usa esse termo?). Comigo o Dingue singra as estradinhas rurais kiarostâmicas do Espírito Santo, passando por vales deslumbrantes e uma caverna tão incrível que fiquei zangada por não me deixarem entrar. O cara me usa até como lanterna para iluminar sei lá o quê.
A princípio, Dingue parece não ter rumo certo. Mas logo a gente vê que ele caminha, ops, me dirige na direção de outra parte de sua família. Por exemplo, comparece ao velório do pai (Antonio Pitanga), um morto que revive para fazer um belíssimo monólogo diante do filho.
Margeado tem coisas misteriosas desse tipo. Na verdade, é uma sucessão de monólogos, como o de Margareth Galvão dentro de um ônibus, numa parte do filme que não presenciei por causa do diabo da correia. Entre os vários monólogos, há muito silêncio, alguns diálogos meio teatrais que até eu, na minha ignorância de máquina, achei que podiam ter sido melhor dirigidos.
No fundo, tem razão quem acha o filme meio afásico, talvez em consequência da catástrofe que se abateu sobre a região. Dingue escolhe ir – olha só – para Minas, onde corre um vírus mortífero contra o qual há poucas vacinas para tanta gente. Às vezes eu não entendia suas escolhas, mas não tinha como contestá-las.
Por algum tempo, ele trabalha numa fábrica de tijolos, indústria irônica que transforma o barro destruidor em material de construção. Ali labuta também um imigrante libanês (Etien Khouri), na mão de quem o Diego vai entregar o filme no final. Aliás, não sei por que o Dingue me deixou ali, em frente à casa do Naim, ao partir sem deixar bilhete ou vestígio. É como eu digo, Margeado tem esses mistérios.
Meu motor estava em bom estado e podia render boas corridas em velocidade razoável. Mas o Diego não queria velocidade. Queria um slow film, talvez à moda de Lav Diaz, embora com duração de duas horas e meia, o que equivaleria a um curta do colega filipino. Sei lá como o público vai reagir à lentidão de certas cenas, muito embora as imagens sejam sempre belas e intrigantes.
O que ninguém pode negar é a maestria da fotografia de Renato Ogata. Eu me senti uma rainha nas vezes em que ele me enquadrava em meio àquelas paisagens. Numa cena, a câmera segue o longo curso de um fio de água que vem desaguar exatamente no pé do Dingue e no meu pneu. Há uma beleza ora pastoral, ora soturna na luz, assim como um trabalho de câmera que os críticos mais atentos vão achar simplesmente precioso. E o que dizer das intervenções musicais, cada uma mais inesperada e pungente que a outra?
Apesar da afasia e do excesso de enigmas, Margeado pode falar à sensibilidade de muita gente no que diz respeito a morte e sobrevivência pós-catástrofe. Quanto a mim, fiquei na expectativa de Naim e sua mulher darem bom uso a minhas ainda potentes cilindradas.
>> Margeado está nos cinemas.






Essa motocicleta é ótima crítica de cinema. 😊
Temo que ela tome o meu lugar.
Concordo plenamente.